Black Money: dinheiro dos negros para os negros

A população brasileira, em sua maioria, é negra. No entanto, do ponto de vista da desvantagem social e exclusão, constitui minoria do Brasil, sub-representada, seja politicamente, seja economicamente. Como acabar com essa situação? O Movimento Black Money (MBM), fundado em 2017, idealizado pela empreendedora Nina Silva, tem uma resposta: fazendo circular dinheiro entre negros.

Na liderança do projeto, Nina foi eleita pela revista Forbes uma das mulheres mais poderosas do Brasil e ficou entre as 100 figuras afrodescendentes mais influentes com menos de 40 anos no ranking da Most Influential People of Africa Descent, instituição ligada à Organização das Nações Unidas (ONU)

A ideia do projeto, de acordo com Nina, é dar autonomia à comunidade negra na era digital e fortalecer o ecossistema de negócios geridos por essa população, hoje 56% dos brasileiros e 53% dos micro e pequenos empreendedores nacionais – mas que também corresponde a 75% dos 10% cidadãos mais pobres do país, e a 67% dos desempregados, de acordo com números apurados pelo MBM.

“Nós negros temos, portanto, dificuldade de escalar e qualificar nossos negócios, a partir do momento que já não temos um processo histórico de inserção social e econômica e que, quando vamos para as instituições, não conseguimos incentivos”, diz.

A proposta de deixar o capital financeiro e social circulando a maior parte do tempo entre os integrantes da comunidade negra, diz Nina, representa uma espécie de “hackeamento do sistema”. A principal ferramenta do MBM para colocar esse plano em prática, aponta, é buscar emancipação por meio de recursos digitais.

O poder dessa população também pode ser medido por outros números. De acordo com os dados do MBM, negros consomem o equivalente a R$ 1,7 trilhão ao ano no Brasil– o que dá mostras do quanto fazer a roda da economia girar entre si pode impulsionar economicamente os empreendimentos capitaneados pelos afrodescendentes do país.

Nina, com 37 anos, já trabalha há mais de 17 anos na área de tecnologia da informação. “Trabalhei em multinacionais, fora do país e liderando equipes de mais 60 pessoas”, conta. No entanto, durante esse tempo, ela não se viu refletida. Aquela velha história: ao redor, majoritariamente estavam homens brancos, e com salários mais altos. De acordo com ela, mesmo que apresentasse melhor performance.

O MBM, Nina diz, surgiu como uma resposta à sua experiência. Ela relata, por exemplo, episódios em que clientes chegaram a duvidar de que fosse ela a gestora de projetos, questionando se ela não seria, na verdade, a recepcionista. Em viagem à Alemanha, conta, também foi questionada por que estava ali trabalhando, enquanto poderia estar procurando por um marido.

Mais do que ocupar espaços, Nina diz que seu objetivo com o MBM é que a população negra seja autônoma, ou seja, que não precise ocupar o lugar de ninguém – mas que crie e tenha o seu próprio espaço. Isso, por acreditar que “a liberdade da população negra no mundo não será conquistada senão por mãos negras”.

Entre as ações desenvolvidas pelo MBM, está o Afreektech, seu braço educacional voltado a empreendedoras e jovens negros, por meio de cursos próprios e parcerias focados em aprendizado tecnológico. Entre eles, Vendas & Marketing; Introdução a Programação; e Liderança e Branding.

Nina Silva, líder do movimento Black Money

Já a StartBlack Up batiza uma série de encontro entre empreendedores e profissionais negros que querem aprimorar ou iniciar seus negócios, e auxiliar na formação de redes de relacionamento entre os participantes.

O MBM também criou o D’Black Bank, uma fintech para conectar consumidores e empreendedores negros. Sua maquinha de pagamentos, apelidada de “Pretinha”, já está em seis cidades: Belo Horizonte, Rio, Porto Alegre, São Paulo, Caieiras (SP), e Florianópolis.

Em dezembro, será lançado o Mercado Black Money, um market place para reunir empreendedores negros, ampliando o aceso da comunidade para negócios e serviços produzidos pela própria comunidade. Para 2020, o MBM planeja lançar uma conta digital e também cartões, e a ideia é chegar ainda à oferta de microcrédito.

Matéria adaptada do site Valor Investe

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