O Dilema das redes: entenda o documentário

Quando você percebeu que está viciado nas redes? Se você não consegue cumprir uma atividade sequer sem dar uma olhadinha no celular, se você ouve o som de notificação e já tem um movimento involuntário de pegar o seu aparelho ou se você conversa com uma pessoa com a cara na tela, seja muito bem vindo ao dilema das redes.

O documentário da Netlix, lançado em setembro deste ano, desenha a dualidade que move as redes sociais: as ferramentas trouxeram avanços significativos e provocou mudanças sistemáticas ao redor do mundo, mas gerou efeitos colaterais que precisam ser discutidos para ontem.

Para moldar esse debate, o documentarista Jeff Orlowski conversa com diversos executivos, engenheiros e CEOs do Vale do Silício que foram as mentes produtivas por trás do Facebook, Twitter, Instagram e outras das redes sociais mais usadas pelo mundo. Ao trazer esses profissionais ao cerne da discussão, a obra ganha credibilidade, afinal essas pessoas não apenas perceberam o problema que envolve as redes, mas criaram ele.

Qual dilema é esse?

O documentário escancarou algo que já era discutido desde em conversas de bares até em congressos acadêmicos, mas que muita gente ia empurrando para baixo do tapete: as redes sociais nos manipulam. As redes, assim como qualquer empresa, precisam gerar lucro e de onde esse lucro vem? De você, usuário!

O objetivo dos algoritmos não é fazer com que o conteúdo mais interessante chegue a você, mas sim te incentivar a ficar mais tempo nas redes sociais, pois dessa forma você consumirá mais anúncios, e adivinha? Mais anúncios = mais lucro para essas empresas.

Se você não está pagando pelo produto, você é o produto.

Para alcançar esse objetivo, foram criadas diversas ferramentas como as notificações push, recomendações personalizadas, rolagem infinita, tudo isso para te deixar o maior tempo possível conectado. Sim, o marketing e a publicidade sempre se utilizaram de técnicas persuasivas, porém aqui estamos falando de ferramentas muito mais precisas e que captam muito mais muito dados.

As ferramentas são desenhadas para te manipular

Na cultura das redes, há um ciclo que se autoperpetua: vem um sentimento de tédio, angústia, desconforto e a sua primeira reação é pegar no celular. Você sabe que se der uma olhada, ou melhor, uma rolada, vai ter algo para você. É como acionar um caça níquel na expectativa de ganhar algo.  Só que o apelo desse ganho se esvai rápido, e o desejo por algo estimulante volta.

Foi pensando nesse ciclo que o designer de interfaces Aza Raskin, criou o movimento de scroll (descer a tela para acompanhar o conteúdo). Raskin passou anos estudando como a tecnologia sequestra nossas vulnerabilidades psicológicas até criar o scroll, mecanismo que se assemelha a um caça-níquel. O designer vinculou a ação do usuário com uma recompensa variável. Você puxa uma alavanca descendo a tela e logo recebe uma recompensa atraente ou nada. A dependência é maximizada quando a taxa de recompensa é mais variável.

Somente duas indústrias chamam seus clientes de usuários: o tráfico de drogas e a tecnologia.

Ou seja, todos nós temos uma máquina caça-níquel no bolso, que apelidamos de celular. Graças a esse e outros mecanismos persuasivos presentes nas redes, criamos um hábito inconsciente e programado de mexer nas telas, fazendo com que seja um movimento automático checar as notificações das redes.

Como muito bem pontua o ex-engenheiro do Google Tristan Harris,  “estamos treinando e condicionando uma geração inteira de pessoas que, quando se sentem desconfortáveis, solitárias ou com medo, usam ‘chupetas digitais’ para se acalmar e isso vai atrofiando nossa habilidade de lidar com as coisas”.

A busca (contínua) por aceitação

O Dilema das Redes acerta ao mesclar os depoimentos de especialistas com um retrato ficcional fácil de se identificar: uma família que vive os efeitos colaterais dos vícios gerados pelas redes. Enquanto ouvimos um depoimento sobre as consequências das redes sobre a autoestima dos adolescentes, assistimos uma jovem sendo manipulada por imagens performáticas e assim, buscando por aprovação alheia no mundo online. Será que ao conceber o botão de “like“, seu criador refletiu como isso afetaria crianças e adolescentes?

Bom, o psicólogo social Jonathan Haidt não apenas refletiu, como também relaciona as redes sociais a uma explosão de casos de depressão e ansiedade em crianças e adolescentes. Mas esse impacto negativo não é só fruto de um uso compulsivo das redes, mas sim da forma irresponsável como as redes lidam com seus usuários.

Os engenheiros dessas empresas trabalham com a intersecção entre psicologia e tecnologia. Dessa forma, esses profissionais perceberam que podem nos manipular por meio da dopamina, neurotransmissor vinculado ao prazer. Quantas vezes você já se sentiu bem ao receber uma enxurrada de likes em uma foto? Mas o contrário também acontece, não é difícil se sentir rejeitado no mundo online. Esse contraste afeta toda uma geração de jovens.

O uso das redes e a difusão de fake news

O documentário também aborda outro efeito sociopolítico da era digital: a difusão de notícias falsas e polarização política. Como o algoritmo não se baseia na qualidade do conteúdo, mas sim no engajamento da publicação, não é difícil uma notícia falsa se espalhar por aí. A obra revela que as fake news se espalham seis vezes mais rápido do que uma notícia verdadeira no Twitter. “É um modelo de negócio que lucra com a desinformação”, disse Tristan Harris.

Com a interrupta explosão de fatos, a exposição a tantas informações e facilidade de acesso a notícias faltas, é difícil os usuários não optarem pelo último caminho. Sem tempo para comprovar a veracidade dos fatos, nem para uma avaliação crítica, o usuário tende a propagar notícias falsas.

Por isso, nos sentimos cada vez mais em uma bolha na qual os mesmos conteúdos são reforçados, consumimos apenas opiniões convergentes com a nossa e seguimos pessoas e páginas que pensam de forma semelhante a nós. Tudo isso dificulta fortemente o debate democrático no mundo online e reverbera no off-line.

“Aquela notícia falsa no Twitter se espalha seis vezes mais rápido do que noticias verdadeira”, disse Tristan Harris. (foto: YouTube/Reprodução)

Como resolver?

Calma, você não precisa deletar suas redes, mas é essencial que você entenda elas para construir um bem-estar digital. Para isso, selecionamos algumas dicas que podem te ajudar nessa trajetória:

Desative as notificações

Deixe o egocentrismo de lado, o mundo não vai acabar se você não olhar as notificações instantaneamente. As notificações nos manipulam e são uma verdadeira tentação para transformar aquela “olhadinha” em muitos minutos desperdiçados. Então, não espere que as redes vão até você, desative as notificações e vá até elas quando você quiser (ou precisar).

 Vá à caça e fure a bolha

É muito fácil ser induzido a um conteúdo na internet. Afinal, eles chegam até a nós pelos algoritmos a todo momento. Mas é bom ficar atento: a lógica do algoritmo não é te oferecer o conteúdo mais relevante e sim captar sua atenção. Então, que tal fazer a sua própria busca? E ainda, conhecer perfis e veículos fora da sua zona de conforto? Dessa forma, você tem acesso a diferentes perspectivas e acaba tendo uma visão mais plural de um determinado assunto.

Gerencia seu tempo

Quanto tempo da sua vida você oferece as redes? Ou melhor, quando tempo da sua vida você é convencido a dar para as redes? As redes sociais estão competindo pela sua atenção, esse é o modelo de negócio delas. É importante manter isso em mente ao analisar sua rotina online. Se possível, determine um limite de tempo para passar nas plataformas. Inclusive, as redes permitem que você crie notificação para um tempo limite que deseja passar nesses espaços.

 

 

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