Chuvas em Juiz de Fora: Solidariedade e Mudança

Faculdade EnsinE/IESPE e estudantes atuam em prol das pessoas impactadas pelas chuvas em Juiz de Fora e região.

Na última semana de fevereiro, a Zona da Mata mineira passou por momentos difíceis. As chuvas intensas devastaram as cidades de Juiz de Fora, Ubá, Matias Barbosa e Ewbank da Câmara entre a noite da segunda-feira (23) e a madrugada de terça-feira (24). Em Juiz de Fora, diversos bairros foram impactados, deixando a população à mercê de deslizamentos de encostas e enchentes. Desde o início dos ocorridos, estudantes da EnsinE estiveram na linha de frente, tanto na atuação direta nos resgates quanto no papel de voluntários. Passadas três semanas, vamos compreender como foi o momento para essas pessoas.

Pablo

Pablo Freguglia, egresso do curso de Educação Física e Bombeiro Militar, foi um dos profissionais à frente dos resgates e traz uma ideia do que foi o momento vivido: “Eu atuei diretamente na recuperação dos corpos, ali no bairro Parque Burnier, JK e também ali no Bom Jardim”, e completa: “O momento me trouxe muitas memórias de Brumadinho, sabe? Do cenário”.

Da vivência como bombeiro, ao longo dos dias, Pablo carregou consigo a lembrança e a dor daquele momento: “Ali no JK eu conheci uma moça que perdeu 17 pessoas da mesma família. Então eu me coloquei no lugar dela e para mim foi um impacto, uma dor muito profunda”. Sempre vistos como heróis perante a sociedade, os bombeiros também possuem seu lado humano, como traz Pablo:

“Aqui todo mundo é pai, filho de alguém, irmão de alguém, e a gente é de carne e osso. Temos as nossas limitações físicas e psicológicas. E nunca é fácil atuar num cenário desse, ainda mais com a população tão próxima”.

Pablo evidencia que os resgates tiveram momentos difíceis, mas que foi possível enxergar algo positivo mesmo nesse momento. A população ao redor dos desabamentos vivenciou, junto aos bombeiros, o dia a dia, abraçando e cuidando daqueles que estavam trabalhando na linha de frente: “As pessoas falavam: ‘Usa aqui o banheiro aqui de casa’, já abrindo a porta de casa para nós, sabe? Dando para a gente o melhor conforto possível. Fazendo garrafa de café fresco, comprando pão, passando manteiga no pão…”, lembra Freguglia, e completa: “É algo simples, ali, um copo de café, poxa. Isso já alimenta a nossa moral”.

Maria Eduarda

Somente na área apontada por Pablo, o ponto mais alto do bairro conhecido como Parque Burnier/JK, foram 22 óbitos em 12 casas que desabaram com o deslizamento de terra ocorrido. Entre as vítimas do desabamento estava o menino Bernardo Lopes, conhecido como “Tomatinho”. A estudante de Educação Física, Maria Eduarda Baptista, vivenciou essa perda de perto; Bernardo era próximo da família da estudante: “A gente ter perdido ele foi um choque para nós, aqui de casa. Ele era amigo do meu irmão, treinava futebol com ele no ‘Zico’”.

A estudante lembra do momento do velório do menino, quando a família se viu diante do cenário pós-chuvas: “Foi a hora que a gente pensou: ‘Esse negócio está pior do que a gente imagina’, e eu decidi realmente ir a fundo nas doações”. A estudante se recorda dos primeiros momentos, quando começou a sair de carro para distribuir ajuda: “No início, o pessoal via o carro cheio e pedia, parava a gente no meio do caminho. ‘Eu preciso de uma cesta básica’, ‘Eu preciso de água’, ‘Eu preciso disso’. É muito triste, muito triste.”

“A cada lugar que eu ia, eu chorava quando eu chegava em casa”, diz Maria Eduarda. 

Para Eduarda, um dos momentos mais marcantes foi ter presenciado a água subir de nível na quarta-feira (25), quando estava entregando doações no bairro Linhares: “A água subiu em menos de dois minutos. Quando vimos, já estava na canela. A água sobe rápido, absurdamente rápido. E o nosso carro balançando, balançando, sem enxergar nada”. Ao conseguir retornar para sua casa, ela lembra da sensação que teve no caminho: “Eu estava querendo muito chegar em casa, abraçar meu pai, abraçar toda a família inteira, né? E chorando muito porque você acha que amanhã… você não sabe o que pode acontecer, se um barranco pode cair numa chuva que nunca imaginou que ia acontecer”.

Amanda

Fevereiro foi o mês com recorde histórico de volume de chuvas na cidade, desde que se iniciou o acompanhamento pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em 1961, em Juiz de Fora. Foram 752,4 mm de precipitação, culminando nos desastres e desabrigando uma grande parcela da população. Em Juiz de Fora, cerca de 8.500 pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas, e a estudante de Educação Física, Amanda Mendes Duque, relata a emoção sentida diante do impacto das chuvas:  “Ver tudo isso de perto foi e é muito difícil. Acho que para todo mundo, né? Não é nem só sobre os bens materiais, mas é sobre o impacto emocional que fica na gente, o medo, a sensação também de impotência”.

A estudante viu essa realidade bater à porta de sua própria rede de apoio. Ela relata que a família de seu namorado, residente no bairro Industrial, foi uma das atingidas pela subida rápida das águas: “Eles acabaram perdendo tudo, né? Perderam móveis, perderam roupas, tudo que levaram anos para construir”, conta Amanda. A estudante, que não ficou parada diante da tragédia, descreve como a comunidade se mobilizou assim que as águas baixaram: “Ajudamos a limpar a casa, demos força para a família, e conseguimos arrecadar um dinheiro para poder ajudar eles também”.

Amanda relata que foi uma mobilização feita pelo bairro inteiro que, mesmo já tendo vivenciado outras enchentes, teve um susto bem maior após o grande volume de água oriundo do transbordamento do Rio Paraibuna. Mas a resignação vem à tona com a conclusão da estudante:

“Agora a gente tem que ter força, né, para continuar aí, principalmente para conseguir ajudar também outras pessoas. E aos poucos vai todo mundo conseguindo se reerguer”. 

Solidariedade que une

Para Maria Eduarda, o movimento de solidariedade foi o que manteve a esperança em meio ao caos. Ela destaca que, mesmo com a dimensão do desastre, a união das pessoas foi o diferencial: “O pessoal se uniu muito, se uniram muito e isso é gratificante, né? A gente vê que, nessas horas, quem é de verdade ajudou”.

Essa rede de apoio, que nasceu nos bairros e se expandiu, foi fundamental para amenizar a dor de quem perdeu tudo. Pablo Freguglia, que viu o cenário de guerra de perto como bombeiro, reforça que o acolhimento da população fez toda a diferença: “A comunidade abraçou muita gente, apoiou muita gente. O reconhecimento foi muito bacana, superou a nossa expectativa”.

SOS Juiz de Fora

Diante dos ocorridos, a Faculdade EnsinE e o IESPE uniram-se à Sociedade Mineira de Terapia Intensiva (SOMITI), à Associação Médica de Minas Gerais (AMMG) e à Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) à ação “SOS Juiz de Fora”, voltada para o amparo ao município de Juiz de Fora.

O objetivo é mobilizar entidades e pessoas de todo o Brasil para angariar fundos e trazer contribuição ao cenário da cidade, aproveitando, não só a estrutura de comunicação dessas entidades, mas também as redes pelas quais são compostas. “Estamos orgulhosos dessas instituições de âmbito nacional e estadual se preocuparem com a nossa cidade e fazerem uma força-tarefa para ajudar a nossa comunidade”, pontua o Diretor Acadêmico da Faculdade EnsinE/IESPE, Marcos Schlinz.

A iniciativa já viabilizou o repasse de verbas direto para a Prefeitura de Juiz de Fora e continua ativa, na expectativa da captação de mais recursos nas próximas semanas.

Como você pode ajudar a reconstruir Juiz de Fora

A tragédia que atingiu nossa cidade em fevereiro de 2026 marca um momento sem precedentes. Com um volume de chuvas que superou o triplo da média histórica, o impacto foi devastador, deixando milhares de famílias desabrigadas e uma lacuna imensurável de vidas perdidas. Contudo, a resposta da população tem sido um exemplo de resiliência e união.

Se você deseja se somar a esse esforço coletivo de reconstrução, existem caminhos oficiais e seguros para realizar sua doação:

  • Doações Financeiras: A Prefeitura de Juiz de Fora, por meio do pix contribua@pjf.mg.gov.br está recebendo doações de qualquer valor. A quantia, que já ultrapassou R$ 100.000,00, foi revertida, sobretudo, em alimentação a ser distribuída para a população abrigada.
  • Doações Físicas: A Prefeitura de Juiz de Fora mantém uma ampla rede de pontos de coleta para roupas de cama, alimentos e, sobretudo, materiais de higiene em diversos locais da cidade, como o Prédio Sede da PJF, Shopping Jardim Norte, Independência Shopping, supermercados Bahamas e diversas paróquias.
  • Grandes Doações: O ponto oficial para grandes volumes é a empresa Zamed (Avenida Doutor Antônio Firjam, nº 975, Distrito Industrial), com atendimento de segunda a sexta, das 6h às 22h, e aos sábados, das 7h às 16h.

A união de estudantes, profissionais e da comunidade em geral é o que vem dando fôlego à Juiz de Fora para enfrentar este momento difícil. Como destacou Pablo Freguglia, o reconhecimento e o apoio mútuo foram fundamentais para superar as expectativas e levar conforto a quem mais precisa. A reconstrução é um processo longo, mas a solidariedade é o primeiro passo para que, juntos, possamos superar este momento.

Confira algumas imagens enviadas pelos estudantes:

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